Alergia alimentar
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Hipersensibilidade Alimentar (ou Alergia Alimentar)
A hipersensibilidade ou alergia alimentar constitui uma reação adversa, mediada imunologicamente, a alimentos caseiros ou comerciais. Tais alimentos podem conter fontes protéicas animais ou vegetais, além de outros componentes como aditivos, preservantes, conservantes, corantes entre outros.
A incidência de reações adversas aos alimentos em cães continua controversa. Afirma-se que até 30% das doenças cutâneas nos cães se devem a dermatite alérgica e que as respostas a alérgenos ingeridos podem responder por 1% das doenças cutâneas nos cães e nos gatos. Outros dados consideram 10-20% da totalidade dos cães alérgicos, possuindo uma reação adversa a alimentos. Em termo de ocorrência, a HÁ seria a segunda colocada nos gatos e a terceira nos cães dentre as alergias mais comuns nestas espécies.
A reação de hipersensibilidade alimentar pode ocorrer por vários fatores, entre eles: aumento da permeabilidade intestinal, problemas digestivos crônicos, antígenos com conteúdos altamente insolúveis e predisposição individual a reações alérgicas.
Fatores predisponentes:
- Mal digestão: A grande maioria das proteínas dietéticas, que são alérgenos ou potencialmente alergenicas, são quebradas por enzimas gástricas e intestinais, porém apenas aminoácidos e pequenos peptídeos são normalmente assimilados pela mucosa do intestino delgado.Se a digestão for deficiente, a quantidade de antígenos no sistema imune digestivo e seu peso molecular for muito maior, poderá causar reações.
- Alterações na permeabilidade intestinal:
- Atopia: Em aproximadamente 30% dos animais atópicos, a condição clínica é significantemente melhorada com a dieta de eliminação.
Os alimentos mais comumente incriminados nos estudos de alergia alimentar em cães é a carne (bovina, frango e cordeiro), ovos, laticínios e soja, mas qualquer proteína é potencialmente alergênica. Entre os alérgenos alimentares (alimentos que mais causam alergia) mais observados na casuística paulista, em alimentos preparados em casa, tem-se:
35% carne bovina,
15% de frango, arroz
20% rações comerciais,
5% pão e laticínios
Os alérgenos mais incriminados para felinos são aqueles contidos em conservas enlatadas, carne bovina e ovina, laticínios, pescado e glúten.
A idade de início dos sinais pode ser bem variável, podendo ir de 2 meses de idade a 13 anos. Os sinais clínicos de alergia alimentar em cães e gatos são observados tanto no trato digestivo (incomum) como na pele, e pode ocorrer reações imediatas (minutos a horas) e tardias (dentro de algumas horas a dias). A reação intestinal pode ser leve, talvez mostrando somente uma irregularidade na consistência das fezes ou uma reação severa com vômitos, defecação freqüente, flatulência e diarréias que pode conter sangue, e geralmente ocorre logo após alimentação.
A alergia alimentar nos felinos apresenta-se mais comumente como alopecia (áreas sem pelos) e prurido intenso (coceira) não sazonal, acometendo face e pescoço, podendo tornar-se generalizado. Devido a essa coceira intensa, pode haver lesões por auto-traumatismo.
O sinal mais marcante de HA é o prurido não sazonal e geralmente fracamente responsivo a corticoterapia. Nos cães não há sinais clássicos de alergia alimentar, e clinicamente não é possível diferenciar HA de atopia não sazonal. Portanto nos cães e gatos com doença pruriginosa devido a fatores ambientais, também pode ter alergia alimentar.
Portando, os sintomas dermatológicos nas alergias alimentares são bem variáveis, e algumas vezes vagos, podendo ocorrer:
- Urticária e angioedema: sintoma pouco comum relacionado a alimentos.
- Prurido (coceira) localizada ou generalizada: localizada em face, extremidades dos membros, pavilhões auriculaes, abdômen, ao redor dos olhos e ânus;
- Dermatite piotraumática (hot-spot, dermatite aguda úmida): lesão de pele localizada, causada por auto-traumatismo;
- Dermatite miliar: padrão de lesão dos felinos, caracterizada por diversas pápulas crostosas. Sendo a área mais comum de acometimento ao redor do pescoço;
- Padrão de lesão do complexo eosinofílico fellino: úlcera indolente, placa eosinofílica ou granuloma eosinofílico;
- Piodermite superficial recorrente;
- Seborréia secundária;
- Otite externa: em um estudo, foi um dos únicos sinais demonstrados em 30% dos casos;
- Lambedura de pés;
O diagnóstico de HA é baseado nos sinais clínicos, exclusão de outras causas de coceira (principalmente infecciosas e parasitárias), resposta a dieta de eliminação e piora dos sinais a re-exposição.
Testes alérgicos sorológicos ou intra-dérmicos não são eficazes no diagnóstico de alergia alimentar. Sendo o teste mais confiável para diagnóstico, a remoção de todos os alérgenos potenciais e a alimentação com dieta hipoalergênica. Essas dietas geralmente possuem carne e carboidratos de fontes as quais sejam improvável que o animal já tenha sido exposto, como por exemplo:
- fonte protéica: carne de carneiro, de pato, veado, coelho, rã, veado, peixe branco, cordeiro, búfalo, alguns peixes,
- fonte de carboidrato: arroz integral, batata., madioca, banana, tofú
- Pode-se tentar dieta caseira com tais ingredientes, ou optar por uma dieta comercial a base de proteína de soja hidrolisada. Neste tipo de ração é aplicado uma tecnologia capaz de reduzir o peso molecular da proteína, reduzindo a níveis não interpretados pelo trato gastrointesinal com alergênico e portanto incapazes de causar alergia alimentar, porém apresentando umas grande digestibilidade.
Existe vantagens e desvantagens nas duas opções de dieta, que devem ser avaliadas individualmente de acordo com o caso e em conjunto com o veterinário e proprietário do animal.
Durante o período que o animal esteja consumindo a dieta de eliminação, absolutamente nenhum outro alimento deverá ser fornecido, isso inclui palatabilizantes de medicamentos, petiscos ou qualquer que seja a fonte. A dieta deverá ser mantida por um período mínimo de 6 semanas podendo chegar a 12 semanas, e então reavaliada. Caso o animal tenha respondido bem a triagem alimentar, novos alimentos poderão ser testados, sendo 1 alimento por vez, durante 10-14 dias.
Um dos principais empecilhos no diagnóstico e tratamento do paciente com hipersensibilidade, é a adesão do proprietário a dieta (seja caseira pelo trabalho ou comercial pelo custo), contribuição de todos os moradores na casa (crianças e idosos podem ser mais difíceis convencer a jamais fornecer petiscos de qualquer origem ao animal em tratamento), hábitos do animal (cães que reviram lixo ou gatos que caçam), além do período de tempo que pode demorar até o clínico chegar a um diagnóstico preciso. Além disso, o animal precisará de acompanhamento e rotina alimentar pro resto da vida, bem como manejo de dermatopatias secundárias qo quadro alérgico, como infecção bacteriana, fúngica e seborréia.
Hipersensibilidade alimentar x Intolerância alimentar
O termo hipersensibilidade ou alergia alimentar está relacionado a uma resposta do sistema imune a determinada substância, que para outros seres não causaria problemas.
Já o termo intolerância alimentar refere-se a reações não ligadas a sistema imune, relacionadas a substâncias não muito bem toleradas por determinado indivíduo, como por exemplo gorduras em excesso, temperos etc. Em geral o sinal é basicamente gastro intestinal, com vômito e/ou diarréia. A intolerância é uma reação alimentar adversa que não possui base imunológica. Um exemplo clássico, é a intolerância a lactose.
A "American Academy of Allergy and Imunology" definiu intolerância como as reações adversas a alimentos que não sejam imunologicamente mediadas. Essas reações podem incluir as idiossincrasias alimentares (nas quais um componente alimentar afeta o metabolismo do animal), as reações farmacológicas, (nas quais alguns componentes alimentares podem agir como drogas) e o a intoxicação alimentar no qual a reação é causada por uma toxina ou microrganismo.
A intolerância pode ocorrer por diversos fatores, alguns alimentos podem causar urticária ou agravar um quadro de dermatite atópica, ou ainda mimetizar reações anafiláticas se ela contiver altos níveis de:
- histamina: como tomates, espinafre, fígado de porco, crustáceo fresco, atum, queijo;
- componentes liberadores de histamina: chocolate, morangos, peixe,carne de porco, proteína do ovo (ovomucoid);
- triptamina: chocolate, “queijo cozido” (por ex. parmesão)
Clinicamente é difícil diferenciar intolerância de hipersensibilidade, e em alguns casos os dois quadros podem estar presentes no mesmo animal.
Maricy Alexandrino - Médica Veterinária
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