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Informativos - Dermatologia Veterinária

Pulgas e DAP (Dermatite Alérgica  a Picada de Pulgas)

Existem  mais de 2.000 espécies e subespécies de pulgas no mundo. Apesar do cão e gato poderem ser hospedeiro transitórios de todas as espécies, apenas 3 são de preocupação clínica (Ctenocephalides felis, C. canis, Pulex spp). Sendo a C. felis felis a espécie mais comum, com valores de prevalência superiores a 92% em cães e 97% em gatos.

As pulgas, dependendo do clima podem causar um problema estacional para os animais e seus proprietários. A fêmea da pulga (C. felis felis) começa sua produção de ovos 3 a 4 dias após sua primeira "alimentação"  com sangue. A produção varia, com picos de 40 a 50 ovos  por dia. Em condições ambientais favoráveis que permitam um ciclo de 21 dias, uma fêmea pode ovipor uma média de 20 ovos por dia. Se destes 20 ovos, 50% (ou seja, 10 ovos) produzirem novas fêmeas, em 60 dias está única pulga será responsável por uma infestação de mais de 20.000 adultos e mais 160.000 formas jovens. Se as pulgas não forem removidas do hospedeiro, podem sobreviver por mais de 100 dias.

 

Ciclo da Pulga

O ciclo da pulga consiste em 3 estágios larvários e um estágio pupal, sendo OVO – LARVA – PUPA - NINFA – ADULTO

As fêmeas de C. felis felis depositam seus ovos no hospedeiro, e por eles não serem "pegajosos", estes ovos caem do hospedeiro no ambiente  onde seu ciclo se completa.  A temperatura e umidade relativa do ambiente são críticas para o desenvolvimento da pulga e sua sincronização. Em ambientes protegidos a temperatura e umidade locais podem ser diferentes daquelas no ambiente natural e o ciclo de vida pode completar-se mais rapidamente.

Os ovos de pulgas eclodem em 10 dias. As larvas recém eclodidas buscam áreas protegidas  da luz (como em carpetes, assoalhos ou pra fora de componentes orgânicos), onde alimentam-se  de debris orgânicos e das fezes de pulgas adultas. Duas mudas completam-se antes que o terceiro estágio larvário adentre a fase de pupa. A fase larvária se completa em 5-11 dias se alimento estiver disponível e o clima ideal.

No final da fase larvária, o terceiro estágio produz um casulo sedoso no qual ocorre a pupação. Em condições ambientais favoráveis, em 5 dias as pulgas adultas começam emergir, cujo pico é alcançado no oitavo a nono dia. Sem condições climáticas adequadas as pulgas adultas  podem permanecer no casulo por até 140 dias!!!

Na maioria das casas a C. felis felis leva de 3 a 4 semanas  para completar seu ciclo de vida. Os adultos recém emergidos, precisam de um hospedeiro  para sobrevivência a longo prazo.

Todo cão ou gato que frequentem áreas públicas, como banho e tosa, pet shop, parques, canis  ou que entrem em contato com outros animais, estão sob risco de contrair pulgas.

As pulgas além de gerarem um transtorno para o proprietário do animal, também pode causar doenças no cão ou gato. As pulgas funcionam como hospedeiro do Dipylidium caninum, parasita intestinal que infecta cães e gatos ao ingerirem a pulga infectada. Além disso pode gerar problemas de pele devido a composição de sua saliva que ela deposita ao picar o animal. E mais, cerca de 72 fêmeas podem sugar o equivalente a 1 ml de sangue por dia, podendo levar ao aparecimento de anemia, dependendo do grau de infestação e tamanho do animal.

 

Dermatite Alérgica a Picada de Pulga (DAPP)

Extratos de saliva de pulga e o inseto completo contém diversas substãncias potencialmente alergênicas  Alguns estudos demostraram que pelos menos 15 alérgenos diferentes estão presentes  na saliva.

A alergia a pulgas é a causa mais comum de coceira e feridas por auto traumatismo em cães e gatos. Apesar da doença poder acometer cães  e gatos de qualquer idade, é raro ver casos de animais com menos de 6 meses de idade. A idade mais comum para o aparecimento dos primeiros sinais é de 3 a 5 anos.

No cão, os sinais mais comumente observados de alergia a pulgas são mordeduras e coceira ao redor  da nádega, base da cauda, coxa, abdômen ventral e flanco, podendo aparecer lesões secundárias ao auto-trauma chamadas de dermatite aguda úmida ("manchas quentes"). Nos gatos poderão ser observados  perda de pelo, coceira, lambedura excessiva (que pode ser confundido com cuidado excessivo com a pelagem), mas com mais frequência poderão ser percebidos crostas e protuberâncias ao redor do pescoço  e abaixo do dorso (dermatite miliar). Nos cães as coceiras e erupções podem acometer todo o corpo. Esta sensação de coceira pode durar  mais de 2 semanas após a última picada da pulga.

Pode parecer confuso dizer que seu cão ou gato possui dermatite alérgica a picada de pulga  se você quase nunca vê pulgas.  Quando seu animal se coça ele tem uma enorme capacidade de caçar e comer as pulgas antes que você possa vê-las. Entretanto você poderá achar evidências de que as pulgas estão mordendo seu animal, usando um pente fino e escovando a "sujeira da pulga"  para fora do pelo.  Esta sujeira parece pequenos pontos pretos  e consiste basicamente em sangue seco, presente nas fezes da pulga.  Se você colocar estes excrementos  num papel úmido ele se dissolve deixando vestígios de sangue corados de vermelho/marrom.

O diagnóstico da DAPP baseia-se no histórico, exame físico, exclusão de outras causas alérgicas e de coceira excessiva, e boa resposta ao tratamento.

Cerca de 15% dos cães com DAPP não apresentam evidência de infestação por pulgas, e portanto  o fato de não encontrar pulgas no momento do exame NÃO descarta o diagnóstico. Assim como a presença delas não confirma o diagnóstico, visto cães atópicos e com alergia alimentar também poderem apresentar DAPP.

Os testes intradérmicos não são sensíveis para o diagnóstico, visto que se o cão apresentar reação positiva ao teste significa apenas que ele possui anticorpos  ao antígeno da pulga, mas não necessariamente  que a reação tenha importância clínica.

O tratamento da DAPP inclui remoção absoluta das pulgas, com prevenção frequente e uso de drogas que aliviam a coceira durante crises. Existe inúmeros produtos pulicidas/anti-pulgas no mercado: sprays, comprimidos, xampus, pipetas pour on, spot on cada um com uma substancia e mecanismo de ação diferentes. Mas para o tratamento da DAPP não são todos que servem, deve-se escolher produtos antipulgas que a pulga NÃO PRECISE  picar o animal para morrer, que seu efeito seja tão somente pelo contato da pulga com a pele com a medicação, além de preferencialmente possuir um componente regulador de crescimento de pulgas jovens (controle ambiental associado).  No início do tratamento o veterinário poderá prescrever drogas que aliviem a coceira do animal e evitando lesões por auto-trauma. Visto ser uma doença alérgica, o controle de pulgas deve permanecer rígido por toda a vida do cão/gato.

 

Recomendação para o Controle das pulgas

O controle das pulgas deve envolver todas as áreas de infestação. Isso significa combater as pulgas em seu animal E em sua casa e jardim, pois 95% das pulgas estão no ambiente e somente 5% no animal. Ou seja, se você encontrar 5 pulgas no seu cão ou gato, outras 95 estarão espalhadas no chão, tapetes, carpetes, camas..

Tratando-se apenas uma vez, matam-se as adultas e algumas pré-adultas, mas isto resulta em recidiva da infestação quando os ovos  resistentes eclodem ou as pupas deixam seus casulos.

O controle interno da casa pode ser difícil, principalmente se houver muitos animais, em especial os gatos com acesso a rua. Todos os ambientes devem ser aspirados, não esquecendo de locais como sofás, chão abaixo dos móveis e  tapetes. Em seguida um produto apropriado para o controle ambiental de pulgas devem ser aplicado, incluindo o local onde o animal vive/dorme. Nunca devem ser utilizados produtos sem orientação profissional, pois alguns são extremamente tóxicos a cães e gatos, quando mal utilizados.

Um produto adulticida para animais alérgicos a pulgas  ou casas para animais alérgicos está recomendado. Várias novas formulações para aplicação tópica, são seguras e oferecem grande facilidade de uso. A frequência de aplicação varia de acordo com o produto e a intensidade de banhos que o animal toma. Produtos que regulam o crescimento das pulgas, estão disponíveis no mercado pet em várias apresentações (pipetas, xampus, comprimidos). Em geral eles vem associado a um adulticida, agindo da seguinte forma: o adulticida mata as pulgas adultas presentes no momento da aplicação, e o agente regulador do crescimento  evita o desenvolvimento de larvas.  Entretanto, não matam as larvas já pupadas  e alguns adultos pré emergentes. Com isso novas pulgas podem ser vistas num prazo de 5 a 14 dias após aplicação do produto, e por isso a  associação de produtos é indicada, cada um para uma função.

As larvas de pulgas são sensíveis ao calor e umidade abaixo de 50% e temperatura acima de 35ºC são letais. Porém caso os ovos caiam em áreas protegidas poderão se desenvolver.

Um local frequentemente esquecido para controle de pulgas, é o carro da família, usado para transportar o animal. Este deve ser aspirado tão frequentemente quanto o acesso do animal ao veículo.

O tratamento completo da casa depende de esforço intenso e tempo disponível por parte do proprietário. Muitas vezes um mal controle  ambiental é devido a desinformação por aplicarem produtos de maneira erradas, sem orientação profissional do Médico Veterinário.

 

Maricy Alexandrino – Médica Veterinária


©Este texto é um trabalho original do Autor e é protegido pela Lei de Direitos Autorais. Qualquer uso ou reprodução deste texto depende de prévia e expressa autorização do Autor

 


Referências Bibliográficas:

ETTINGER, S.J.; FEELDMAN, E.C.; Tratado de Medicina Interna Veterinária, 5º ed. Vol. 2, Rio de Janeiro: Guanabara, 2004.

SCOTT, D.W.; MULLER, W.H.; GRIFFIN, C.E.; Muller & Kirk, Dermatologia de Pequenos Animais, 5º ed. Rio de Janeiro: Interlivros, 1996